Divulgação Científica

Professor da UFR participa de seminário sobre migrações em Angola

Por Thiago Cardassi Publicado em: 21/12/2023 17:12 | Última atualização: 21/12/2023 19:12
Professor Higino Lombe, alunas do Instituto Superior de Ciências Sociais e Relações Internacionais e o professor Ariel dos Santos



O pesquisador da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), professor Ariel Costa dos Santos, participou do III Seminário Internacional sobre Migrações, realizado neste mês de dezembro em Luanda, Angola. O docente, vinculado ao curso de graduação em geografia, recebeu uma carta-convite para apresentar os resultados da pesquisa que vem desenvolvendo na UFR a respeito das relações estabelecidas entre a população negra e a formação territorial de Mato Grosso.

A viagem é fruto de aprovação em edital de apoio à internacionalização, ofertado pela Secretaria de Relações Internacionais (SECRI) da universidade, que possui como objetivo apoiar a participação de servidores e estudantes em eventos científicos ou missões institucionais no exterior de modo a propiciar a visibilidade internacional da produção científica, tecnológica e cultural geradas na UFR.

O docente foi contemplado para viajar à Angola e apresentar as pesquisas realizadas no âmbito do projeto População Negra e Formação Territorial de Mato Grosso. A ideia da pesquisa surgiu como uma maneira de diagnosticar e repensar os movimentos migratórios, mas também como forma de criar uma aproximação com países africanos, sobretudo países de língua portuguesa.


Repensar à diáspora

Ariel explica que as migrações com características da diáspora africana foram reconfiguradas a partir do século XX de acordo com os contornos dados pela exploração do agronegócio. “A chegada da população negra no território mato-grossense, se dá a partir de populações que foram escravizadas nesse processo de interiorização e de ocupação de Mato Grosso. Essa população chega, portanto, em conjunto para trabalhar na condição de mão de obra escravizada, sendo extremamente importantes para a manutenção cultural no mundo do estado, mas também para construir povoados”, comenta.

Agora, com a proliferação das cadeias produtivas do agronegócio, as pessoas têm migrado para trabalhar nas cidades onde o setor agro mais se expande. De acordo com o pesquisador, esses processos possuem “características diferentes, mas com algo que os une: é que em todo tempo, as condições dessa população no território mato-grossense são marcadas pela subalternidade. Então, ainda hoje, os trabalhos que essa população exerce não são os com maiores ganhos”.

O professor salienta que, para além da apresentação do trabalho, sua viagem também teve como objetivo escutar essas pessoas e estabelecer vínculos coparticipativos entre pesquisadores do Brasil e Angola. “Para eles, os brasileiros são irmãos, e acreditam que o Brasil pode contribuir efetivamente com Angola. E eu acredito que Angola pode contribuir muito com o Brasil. Precisamos verificar o que a gente pode fazer para estar mais lá e para eles estarem mais aqui”.


Ariel dos Santos e reitor Amaral Lala



Seminário Internacional e parcerias interinstitucionais

O III Seminário Internacional sobre Migrações integrou parte das discussões mundiais sobre o Dia Internacional dos Migrantes, celebrado anualmente em 18 de dezembro, pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Nesta data, celebra-se a riqueza e contribuição das migrações no mundo, no âmbito cultural, linguístico, económico, social e educativo. Em sua terceira edição, o seminário teve como tema A Transversalidade das migrações e contou com conferências, mesas redondas, eixos temáticos de apresentação de trabalhos em painéis, minicursos, oficinas, sessão de cinema e debate, apresentações artísticas, feira de livros e feira de cultura e artes.

Durante o evento, o professor Ariel dos Santos realizou encontros com autoridades e pesquisadores de universidades de Moçambique, Angola, Brasil, Benin e Irlanda, de modo a promover o fortalecimento institucional e  contribuir com a compreensão da diáspora negra no território brasileiro e seus desdobramentos. Desta maneira, o pesquisador teve a oportunidade de conhecer o Reitor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Relações Internacionais e coordenador do Centro de Estudos Africanos, professor Amaral Lala, e reunir-se com o grupo de estudos sobre migrações.

Ariel considera a oportunidade como um movimento de deslocamento ancestral. “Eles falam muito do termo ancestralidade. Para mim, a ancestralidade é um retorno que é caracterizado também pela construção, fundamentação de um lugar. Quando eu saio pra Europa e estudo, eu não quero ficar somente lá. Então eu retorno para a África porque eu sei que preciso ajudar o meu povo. E uma das coisas que eu aprendi lá é que pessoas são pessoas. E isso me marcou muito”, comentou o professor.

Além disso, salientou a necessidade de buscar compreender a relação entre Brasil e continente africano não apenas no passado, mas a partir do conhecimento, aproximação e leitura de pensadores do presente. “A gente não vai conseguir voltar no passado. A escravidão foi catastrófica. Aproximadamente 68% das pessoas embarcadas nos portos de Luanda vieram pro Brasil. Eu acho que o movimento de retorno, sobretudo de compreensão e de construção de algo novo, se dá, primeiro, quando a gente tem esse processo de imersão. E um dos desafios é ler autores da África, que moram na África, que estudam sobre a África. Participar de eventos na África com autores da África. Porque eu acho que a partir daí a gente vai conseguir compreender a partir de lá”.


Representatividade e singularidades

Ariel também é membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI/UFR), unidade institucional criada com o objetivo de combater o racismo e promover a inclusão de pessoas negras e dos povos originários na universidade. O professor agradeceu o apoio recebido pelo núcleo e por pessoas da comunidade. “Eu sentia que estava representando um povo. Eu fui representando a universidade, fui representando o NEABI e todas as pessoas negras que atravessaram o Atlântico dentro de embarcações e não tiveram a oportunidade de estudar e que ainda hoje não tem acesso ao básico, que é uma realidade no brasil”.

O professor encerrou seu relato afirmando que há desafios para se pensar o Brasil, mas que a experiência da viagem transformou sua percepção do continente africano e sua relação com o Brasil. “Você pega o norte de Angola é uma cultura, o sul de Angola é outra cultura. Luanda é uma outra cultura. Então quando eu falo cultura africana no Brasil, eu não dou conta. De que cultura eu estou falando? Então não dá para homogeneizar a África. Quando eu vou falar de África, precisamos falar de pontos específicos e realidades específicas”, concluiu.

Os pesquisadores Marciele, Ariel, Isaías e Celestina, participaram do seminário