Grupo de Pesquisa divulga entrevista sobre trajetória de vida de discentes mulheres da UFR

Com o propósito de colocar em pauta histórias de vida, vivências e trajetórias de mulheres estudantes universitárias da graduação e da pós-graduação da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), o Laboratório Esquizoanalítico de Produção de Subjetividades e(m) Interseccionalidades (LEPSI), em parceria com a Supervisão de Assistência Estudantil (SAE-UFR), apresenta uma entrevista realizada com discentes da comunidade acadêmica.

As pesquisadoras e pesquisadores do grupo de pesquisa lembram que, por meio de lutas e práticas de resistência, as mulheres têm conseguido acessibilidade à espaços sociais e políticos que historicamente lhes foram barrados. O ambiente universitário é um destes espaços no qual é possível observar a significativa inserção da mulher, tornando-se percentualmente a maioria entre estudantes de graduação. Entretanto, mesmo com estes avanços, o LEPSI salienta que a mulher universitária ainda pode encontrar em sua trajetória dificuldades para assegurar seu espaço e suas conquistas.

São diversas as barreiras que podem diminuir as chances ou a rapidez de alcance dos objetivos da mulher desde a graduação até a sua ascensão no mercado de trabalho. Ocupações socialmente associadas às mulheres, como o cuidado familiar e da casa e a maternidade, podem impactar este caminho de diferentes maneiras e forças, considerando outros atravessamentos além do gênero, como raça/etnia, perfil socioeconômico, idade e regionalidade, entre outros.

Motivado pelas celebrações em torno do dia da mulher que reverberam por todo mês de março, o grupo de pesquisa realizou uma entrevista com estudantes mulheres da UFR. As entrevistadas são Jéssica Matos (25 anos), do mestrado em Educação; Marta Magali (47), do curso de Letras/Português; Rackel Alves (24) do mestrado em Engenharia Agrícola; Letícia Evellin (22), do curso de Letras/Inglês; e Bruna (24), do curso de História, que, de acordo com o LEPSI, concordaram em ter seus relatos e imagens publicados no website da Universidade Federal de Rondonópolis.

O LEPSI, locado no curso de Psicologia da UFR, desenvolve eventos, pesquisas, estágios e ações extensionistas que têm por objetivo articular e promover ações interventivas que minimizem os efeitos de práticas sociais violentas direcionadas às populações em situação de vulnerabilidades pessoal, social e institucional, sustentando-se em ações que apresentam convergências com as premissas dos Direitos Humanos e da ética e potencialização da vida. A SAE, por sua vez, é responsável pela gestão e acompanhamento de políticas institucionais no âmbito da assistência estudantil e de ações afirmativas, para o atendimento de demandas e necessidades socioassistenciais, de modo a propiciar efetiva permanência das/dos estudantes da UFR, com vistas ao êxito em sua formação.

 

 

Como aconteceu seu ingresso na universidade e quantos anos tinha?

Jéssica: Meu ingresso na universidade se deu quando eu ainda morava na cidade de Barreiras/BA, onde nasci e fui criada. Logo após a minha saída do ensino médio, aos 17 anos, ingressei no curso de Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades na Universidade Federal da Bahia/Campus Barreiras (atualmente nomeada Universidade Federal do Oeste da Bahia/Campus Barreiras, após o processo de emancipação). Três anos depois, em razão da universidade, mudei para Rondonópolis e ingressei no curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso/Campus Rondonópolis (atualmente nomeada Universidade Federal de Rondonópolis). Logo após o término da graduação, com 24 anos, ingressei no mestrado em Educação na mesma universidade.

Marta: O meu ingresso na universidade foi por meio do SISU e eu tinha 41 anos.

Rackel: O ingresso foi através do ENEM, logo após o término do ensino médio, com 17 anos.

Letícia: Eu entrei na universidade pelo SISU em 2018, eu tinha 19 anos nessa época.

Bruna: Meu primeiro contato com a Universidade foi aos 18 anos, quando obtive nota suficiente para conseguir uma vaga no curso de História.

 

Quais foram suas primeiras impressões?

Jéssica: Como meu ingresso na universidade se deu em dois momentos distintos, inclusive em momentos diferentes da minha vida, da minha história e em contextos geográficos e acadêmicos diferentes, as impressões não foram as mesmas. No primeiro deles, a insegurança, as milhares de dúvidas e o sentimento de incapacidade por ter recentemente saído do ensino médio e estar vivenciando uma nova etapa, mas também felicidade por estar realizando o sonho de cursar o ensino superior em uma universidade pública e estar mudando a realidade na qual eu estava inserida. Já no segundo momento, a satisfação por ingressar no curso de graduação que eu tanto queria, a tristeza por estar longe da família e o medo por ter saído da minha zona de conforto e estar vivenciando algumas dificuldades ao decidir morar em outro estado. Ao ingressar no mestrado, os sentimentos que vivenciei ao entrar na primeira graduação retornaram, uma nova etapa iniciava e a insegurança se fazia presente novamente, mas também a alegria por estar ocupando um espaço que até então nenhuma outra pessoa da minha família tinha ocupado.

Marta: As minhas primeiras impressões foram as melhores porque eu amo obter conhecimento. Uma lembrança que gosto é de quando houve a paralisação dos discentes em 2018, que lutaram contra a elevação dos preços da alimentação no restaurante universitário. Fiquei tocada ao ver todos aqueles jovens lutando pelos seus direitos com tanta alegria e união. Participei em alguns momentos e dei a minha colaboração de alguma maneira, pois devido às minhas limitações não me foi possível estar presente como desejava.

Rackel: As primeiras impressões na universidade são de “entrada” em um mundo novo. Senti o encontro de várias culturas, pois entrei em contato com colegas de muitos estados diferentes. Além disso, a universidade abriu um leque muito grande de oportunidades que eu jamais teria na vida.

Letícia: Meu curso me surpreendeu. Eu não esperava gostar tanto da grade. No primeiro ano, matérias como Filosofia da Linguagem, lecionada pelo professor Miguel Espinoza, me davam tantas inspirações para escrever mais e mais. De fato, a minha canção “O que sou” foi inspirada nessas aulas. Outra matéria pela qual me apaixonei foi Língua Portuguesa, ministrada pela professora Maraísa Magalhães, ela nos ensinou sobre linguística e eu sempre tive uma queda pelos processos que envolvem a aquisição e uso de uma língua.  Quanto mais eu participava das aulas, mas eu sentia que estava no lugar certo, duvido que escreveria tanto se não estivesse lá. Na UF, a minha composição floresceu e eu sou muito grata por isso.

Bruna: Estar em uma universidade, sobretudo federal, foi a realização de um sonho, não apenas meu, mas de toda minha família, já que fui a primeira pessoa a conseguir algo assim.

 

Quais as principais dificuldades e impasses que você vivenciou nos primeiros semestres de curso?

Jéssica: Os principais impasses vivenciados por mim foram em relação à adaptação em um novo contexto, sendo ele acadêmico e geográfico, os quais estão proporcionalmente relacionados quando me refiro à minha trajetória acadêmica. Estar em uma região totalmente distinta da minha e frequentar uma universidade diferente da qual eu frequentava me trouxeram alguns estranhamentos iniciais e me proporcionaram algumas dificuldades de adaptação, as quais impactaram na minha socialização no ambiente acadêmico, como também no meu desempenho. Para além disso, vivenciei alguns impasses no que diz respeito a minha posição enquanto mulher nordestina, o que me levou, por vezes, a ouvir comentários preconceituosos.

Marta: Não tive impasses e nem dificuldades nos primeiros semestres, acho que faz parte do processo tudo o que um estudante vivencia no âmbito estudantil, seja ele qual for. Sobre minhas limitações pessoais, posso falar sobre um acidente que sofri há 16 anos e que resultou em lesões cervicais, com sequelas de mielite transversa e outras patologias, que me impedem de ficar por muito tempo sentada e de andar grandes distâncias. Minha coordenação motora ficou um pouco comprometida e tenho inflamações nos nervos do corpo todo, mas aparentemente levo uma vida normal, pois aprendi a viver tudo no meu tempo. Mesmo assim, procuro sempre seguir todas as regras dos contextos e atividades a qual escolho fazer parte. Odeio me vitimizar, não desisto dos meus objetivos, sou altruísta em excesso às vezes, mas isso faz parte da minha personalidade, porque só tenho que agradecer ao universo por eu estar com todos os meus movimentos físicos normais depois de ter sido diagnosticada como tetraplégica devido às lesões cervicais medulares. Acredito que tudo é possível, porém temos que compreender que cada um tem a sua maneira de alcançar o seu “possível”.

Rackel: Nos primeiros semestres a maior dificuldade é se adaptar à dinâmica do local e ao nível de dedicação que o curso exige, é também conciliar isso com os outros aspectos da vida, como vida pessoal, familiar e etc.

Letícia: Os primeiros impasses creio que sejam próprios de mim. Tive dificuldades com organização de tempo e manejo da demanda dos trabalhos. Também tive dificuldade com trabalhos escritos, sempre os protelava, porque apesar de amar escrever poemas e canções, eu sempre duvidei da minha capacidade de escrever textos técnicos, me considero muito sentimental pra isso, e por medo de falhar miseravelmente, protelo. No entanto, tenho aprendido a driblar esse sentimento aos poucos.

Bruna: Sendo sincera, a minha maior dificuldade foi conseguir me soltar para expor meus posicionamentos e até mesmo minhas dúvidas. Mas após o terceiro semestre comecei a trabalhar e isso dificultou muito minha vida acadêmica, já que saía do serviço faltando vinte minutos para a saída do ônibus que me leva e me traz de Pedra Preta, onde moro.

 

O que mudou de lá para cá?

Jéssica: Como todo processo de mudança requer um período de adaptação, e este, por vezes, pode ser mais longo ou mais curto, vivenciei alguns impasses em decorrência disso, mas que, após esse período, foram minimizados, ao passo que eu ia me acostumando com esse novo contexto. Sobre as situações preconceituosas que vivenciei, elas não deixaram de existir com o passar do tempo, mas aprendi a enfrentá-las e resisti-las.

Marta: A elevação da minha autoestima. Me tornei uma mulher mais forte em todos os aspectos, enfim, minha visão de mundo atualmente é que posso fazer tudo o que os homens não podem, pois o que eles podem eu já sabia fazer.

Rackel: Atualmente, no mestrado, tendo a visão geral do curso, temos a tendência de achar que as dificuldades iniciais são pequenas, primeiro porque elas vão aumentando de complexidade ao longo do decorrer do curso, o que é natural, e também porque com o passar do tempo adquirimos mais experiência e maturidade pra lidar com as dificuldades que vão surgindo.

Letícia: O fato de me alegrar quanto a minha grade não mudou, a cada ano até aqui tive o privilégio de ter aulas com excelentes professores e discussões enriquecedoras. O que creio que esteja mudando aos poucos é o meu olhar para o mundo, posso dar aulas mais teoricamente embasadas e que buscam instigar cada vez mais a participação e criticidade dos meus alunos. A cada ano, desenvolvo mais habilidades para lecionar melhor e logo me torno uma melhor professora.

Bruna: No sétimo semestre eu engravidei e acabei trancando o curso, pois naquele momento se tornou inviável minha ida para a Universidade.

 

Como se deu a escolha de sua graduação/pós-graduação?

Jéssica: Não direi que a escolha por cursar um mestrado foi tão fácil quanto parece. Por vezes, ela se apresenta como uma difícil opção quando você escuta cobranças “de quando terá um emprego e será bem-sucedida” ou reclamações “de que você só estuda”. No entanto, meus planos de cursar um mestrado em Educação foram impulsionados pelo desejo de dar continuidade a questões que continuaram a me provocar reflexões, que se fazem emergentes no dia a dia e que a meu ver não deveriam esgotar ao término da graduação.

Marta: Escolhi o curso de Letras porque sou amante da Língua Portuguesa e das Literaturas. No entanto, antes de iniciar esta graduação, cursei alguns semestres de Biblioteconomia, à noite, pois eu morava em outra cidade e dependia de transporte para ir para o campus e não havia ônibus nos horários do curso de Letras. Amei os semestres que fiz do curso de Biblioteconomia e me foi muito válido o que aprendi, porém, ao perceber todo o sacrifício de ir e vir todos os dias e não estar num curso que eu amava, decidi fazer a transferência facultativa e me mudar para Rondonópolis. Assim pude me dedicar ao que amo, que é o curso de Letras.

Rackel: A graduação foi escolhida pela afinidade com a engenharia voltada para o meio ambiente e pelo forte setor agrícola da região. Ao término do curso, percebi que me identificava com a pesquisa científica e por esse motivo escolhi o mestrado.

Letícia: Esse curso não era o que eu sonhava em fazer, a princípio. Em 2017 tentei entrar no curso de Música em Cuiabá, mas não passei no teste prático. Em algum momento após o término do meu Ensino Médio (me formei Técnica em Química na IF de Rondonópolis), pensei em cursar Biologia, mas depois percebi que era só um hobbie. É engraçado porque nessa época eu já era extremamente envolvida com a língua inglesa, mas não pensava em cursar Letras/Inglês. Eu estudo essa língua desde os meus 15 anos e já era fluente em 2018, com o inglês escrevo músicas e poesias e me sinto livre pra falar de sentimentos. Então, depois de muito pensar e despensar, decidi tentar entrar no curso de Letras/Inglês na UFR por uma questão de praticidade por já estar envolvida com a língua e ao começar meus estudos fui maravilhada pelo nível das discussões.

Bruna: Professor é a profissão mais bela que existe e isso sempre me fascinou. O fato de saber que posso contribuir para a mudança da realidade de crianças e adolescentes sempre foi uma meta de vida. Sempre acreditei que a mudança do mundo começa com pequenas atitudes e um bom professor é capaz de plantar a sementinha que fará florescer uma realidade mais justa.

 

Você precisou mudar de cidade para investir em sua formação? Se sim, de onde você veio e como foi essa mudança?

Jéssica: Sou natural de Barreiras/Bahia e me mudei para Rondonópolis para cursar Psicologia. Em relação à mudança, tive algumas dificuldades no que diz respeito à minha adaptação e à situação financeira da minha família para me manter em outro estado. Por isso reforço a importância e a continuidade das políticas de assistência estudantil, para que elas possam viabilizar e garantir a permanência de estudantes em situação de vulnerabilidade na universidade.

Marta: Sim, eu precisei me mudar para Rondonópolis para poder fazer a graduação. Antes eu morava em Santa Elvira, um distrito do município de Juscimeira, porque meus pais moravam lá também.

Rackel: Não.

Letícia: Felizmente não precisei mudar de cidade. Nasci e fui criada em Rondonópolis.

Bruna: Não precisei me mudar de cidade, mas moro em Pedra Preta e é necessário me deslocar para Rondonópolis para assistir às aulas presenciais.

 

Como a pandemia de COVID-19 atravessou/atravessa sua trajetória acadêmica?

Jéssica: No que diz respeito a minha trajetória acadêmica, a pandemia me trouxe algumas frustrações em relação às expectativas que eu tinha sobre cursar um mestrado. Realizar as aulas e conduzir a pesquisa de forma presencial faziam parte das minhas expectativas e do meu desejo quando ingressei no mestrado, porém eles foram frustrados por conta da pandemia e do ensino remoto. Também preciso pontuar que todo o cenário pandêmico refletiu diretamente na minha saúde mental e no meu bem-estar, o que, consequentemente, impactou no meu desempenho acadêmico.

Marta: A pandemia de COVID-19 atravessou minha trajetória acadêmica como mais um desafio a ser enfrentado e conquistado. Vejo nisso tudo um novo meio de aprendizado.

Rackel: A pandemia deixou tudo extremamente desafiador, não só pelas dificuldades básicas que o isolamento trouxe para o desenvolvimento da pesquisa, mas principalmente por afetar o psicológico. Estamos inseridos num contexto de mais de mil mortes diárias, são muitas pessoas perdendo entes queridos, ficando doentes, passando dificuldades financeiras devido a pandemia, é impossível se sentir bem e inteiro para desenvolver seu trabalho numa situação dessa.

Letícia: A pandemia me deixou mais sensível e mais pensativa, o que de certa forma afetou meu desempenho e ânimo, mas eu pude contar com uma grade de professoras compreensíveis e dedicadas ao ensino para nos apoiar durante esse período.

Bruna: Infelizmente tranquei a faculdade quando engravidei, então não teve muito impacto, tirando o fato, é claro, de não conseguir voltar.

 

Você trabalha ou trabalhou durante a pandemia? Como é/foi?Você trabalhou em algum momento durante sua graduação/pós antes da pandemia? Como foi?

Jéssica: Não.

Marta: Eu não trabalhei durante a graduação em nenhum momento.

Rackel: Não trabalhei durante a pandemia e nem durante a graduação e a pós.

Letícia: Sim, trabalhei antes e durante a pandemia. Eu trabalho desde o meu primeiro ano na universidade. Leciono inglês em uma escola de idiomas. Tenho o privilégio de trabalhar em uma empresa muito preocupada com seus profissionais. Durante a pandemia, lecionamos de forma online, mas antes disso recebemos treinamento para conduzir as aulas remotas. O meu trabalho sempre foi muito gratificante, pois como já mencionei, gosto muito da língua inglesa. Eu também tenho paixão por explicar, lecionar e me conectar com as pessoas. Logo, trabalhar durante a pandemia foi benéfico para mim, pois assim eu estava envolvida de alguma forma. As dificuldades que enfrentei foram o cansaço, gerado por estar constantemente em frente a uma tela de computador, tanto para fazer as aulas da universidade como para lecionar para meus alunos. Eu tive dores de cabeça com mais frequência nesse período, o que não ocorria tanto com aulas presenciais. Eu sentia muita falta do contato com os alunos, mas ver eles, assim como ver minhas colegas de classe através da câmera na aula online, já me alegrava.

Bruna: Sim, inclusive trabalhei com a vigilância sanitária, foram tempos difíceis, mas que fizeram com que eu me sentisse útil diante de tanta tragédia. E eu também sempre trabalhei, mesmo antes da pandemia.

 

Você mora sozinha, com familiares ou amigos?

Jéssica: Moro sozinha em Rondonópolis e passei grande parte do ano de 2020 sem ver meus familiares, que estão na Bahia, por conta da pandemia. Estar sozinha em outro estado, vivenciando um cenário pandêmico, me deixa angustiada por sentir que a minha rede de proteção e cuidado está fragilizada.

Marta: Sim, eu moro sozinha atualmente.

Rackel: Com familiares, me sinto privilegiada.

Letícia: Moro com minha família, parte dela, pois meus pais são separados. Eu gosto muito de morar com minha família. Com a minha família, choro e mostro vulnerabilidade, são meu apoio. Sou muito amiga, por exemplo, da minha irmã que mora comigo. Ela também fala inglês e leciona no mesmo lugar que eu. Nós trocamos muitas experiências, conversamos e desabafamos bastante uma com a outra em inglês e português. Ela presencia os meus processos de escrita de músicas, assim como minha mãe, e me apoia muito.

Bruna: Moro com meus filhos e meu esposo.

 

Você atuou ou atua como estagiária? Se ainda não, como espera que seja essa experiência?

Jéssica: Atuei como estagiária por dois anos, quando estava na graduação em Psicologia, na Defensoria Pública – Núcleo Criminal de Rondonópolis, realizando atendimentos psicossociais. Considero essa uma experiência importante na minha trajetória acadêmica, pois me proporcionou transitar por espaços para além dos muros da universidade, ampliou meu olhar e me possibilitou uma visão e escuta sensível e complexa para os sujeitos e os fenômenos político-sociais. Dessa forma, aponto como as atividades de estágio e extensão se fazem importantes e urgentes, pois promovem vivências que extrapolam as salas de aula e nos colocam em contato com a comunidade.

Marta: Sim, eu já fiz um estágio e amei o envolvimento com os alunos.

Rackel: Somente o estágio docência.

Letícia: Ainda não atuei como estagiária. Eu espero ser muito apoiada pelas professoras durante o estágio e acredito que serei. Sei que será um desafio, pois até então eu leciono para um número limitado de alunos por turma, nunca tive a experiência de lecionar para um grande grupo como será no estágio. Eu sei que terei dificuldades, mas acredito que se houver diálogo com a professora de estágio, como já há, posso estagiar de forma mais consciente, aprendendo a lidar com as demandas que os alunos apresentarão. Eu espero também me conectar com os alunos e fazê-los se sentir acolhidos, o qual sempre é meu objetivo quando leciono. Eu acredito no ensino pautado numa relação de confiança entre aluno e professor, onde o aluno se sente confortável para questionar e não com medo. Em suma, espero que haja apoio, diálogo entre estagiárias e supervisora e que os meus alunos se sintam acolhidos.

Bruna: Não atuei, mas estou ansiosa para poder atuar na área.

 

Você cursou o semestre 2020/1 realizado via remota? Se sim, como foi a experiência? Se não, qual foi o motivo?

Jéssica: Confesso que, apesar de todo o esforço dos professores para garantirem um ensino de qualidade em condição remota, sinto que meu aproveitamento individual não se deu da forma que eu almejava. Sinto que deixei a desejar em alguns momentos e algumas atividades propostas, isso devido à forma como a pandemia atravessou a minha vivência e consequentemente a minha experiência acadêmica.

Marta: Sim, eu cursei o semestre 2020/1 via remota e gostei da experiência, um novo aprendizado tanto para os discentes quanto para os docentes. Foi um esforço grande dos professores no meio universitário.

Rackel: As aulas durante o estágio docência foram remotas e foi bem difícil não estar em sala de aula para entender a dinâmica de como é ser professor.

Letícia: Cursei sim, retomamos as aulas em outubro de 2020 de forma remota. Nesse período estudei matérias teóricas e acredito que tivemos bom proveito dos estudos. As professoras estavam engajadas na troca de conhecimentos e constantemente preocupadas com a saúde mental e física das alunas. Mais uma vez, foi difícil administrar o tempo e parecemos receber mais trabalhos do que antes, no entanto, nossas professoras foram flexíveis com prazos e buscavam entender a situação de cada aluna. Apesar da pandemia acontecendo “lá fora”, tive aulas excelentes e propostas de trabalhos interessantes graças à paixão por lecionar do nosso corpo de professoras.

Bruna: Não, o trabalho não me permitiu, mas vou cursar o próximo semestre, faltam poucas matérias para me formar.

 

Durante esse período, você ficou responsável pelo cuidado de alguém que mora com você (filhos, pais, irmãos)?

Jéssica: Não.

Marta: Eu não fiquei responsável para com os cuidados de nenhum familiar durante a pandemia.

Rackel: Não.

Letícia: Não. Ninguém precisou de cuidado especial na minha casa.

Bruna: Sim, pelo cuidado dos meus filhos e auxiliando meus avós, para evitar que saíssem na rua. Infelizmente minha avó morreu em outubro do ano passado.

 

Como você vê a inserção da mulher na universidade?

Jéssica: Eu vejo a inserção da mulher na universidade como uma conquista de direitos, os quais foram negados ao longo da história. O espaço da universidade, por representar um espaço público e reservado à ciência, e por isso, visto socialmente como duplamente “masculino”, foi, por muito tempo, restrito aos homens brancos e burgueses.

Marta: A inserção da mulher na universidade é uma conquista diária, por todos os desafios que a mulher enfrenta na sociedade. Mesmo assim, atualmente a maioria dos estudantes universitários é composta por mulheres.

Rackel: Essencial no combate à desigualdade de gênero existente no mercado de trabalho, nos mais diversos setores. A mulher precisa ocupar cada vez mais espaço e um meio importante para isso é a formação acadêmica.

Letícia: Eu a vejo de uma forma positiva, vejo muitas mulheres inseridas na universidade, é possível que sejam a maioria e isso me alegra, é lindo ver tantas pessoas em busca de conhecimento.

Bruna: Ver as mulheres conquistando lugares que até poucas décadas atrás era predominantemente dominada por homens é um sonho para a geração passada e para a minha também. Conheci mulheres incríveis no meio acadêmico e saber que minha filha um dia terá esse tipo de exemplo é no mínimo inspirador.

 

Quais são os preconceitos que uma mulher pode passar ainda hoje no meio acadêmico?

Jéssica: As mulheres podem sofrer preconceitos de diversas ordens no âmbito acadêmico e eles podem ter vários recortes no que diz respeito à condição étnico/racial, à sexualidade, à idade, à religião, à territorialidade etc. Como eu disse anteriormente, o espaço universitário foi pensado histórico-socialmente para os homens brancos e burgueses, então todos(as) aqueles que estão “à margem” dessa posição irão vivenciar situações preconceituosas nesse ambiente. A universidade não é pensada para mulheres que possuem filhos(as); mulheres negras, indígenas e quilombolas; mulheres com deficiência; mulheres não-jovens; mulheres pobres; mulheres lésbicas, bissexuais, transexuais; e dependendo da região geográfica também é possível apontar intolerâncias religiosas e xenofobia. Dito isso, é importante e necessária a luta por políticas que garantam o acesso e permanência dessas mulheres no ensino superior.

Marta: Os preconceitos que uma mulher pode passar no meio universitário são os mesmos que ela passa em toda sua vida, mas acredito que o acolhimento de cada mulher depende somente de si mesma, eu mesma nunca sofri nenhum tipo de preconceito.

Rackel: Infelizmente ainda é comum a mulher ter o seu conhecimento questionado e ser enxergada apenas como uma figura de enfeite.

Letícia: Imagino que em algumas áreas que têm predominância masculina, as mulheres possam ser subestimadas quanto a sua capacidade, o que pode ser mudado ao passo que se observa o trabalho competente das mulheres. Aqui falo brevemente, pois a minha área é denominada por mulheres, tanto como coordenadores, professoras e estudantes, a minha turma, por exemplo, é composta apenas por mulheres. No entanto, eu tenho a noção de que outras colegas possam enfrentar resistência e questionamentos quanto a sua capacidade e pertencimento à área. Na minha opinião este seria um preconceito, duvidar e questionar o lugar que a mulher escolheu habitar.

Bruna: Ser mulher e sobretudo ser mãe em um espaço ocupado por jovens pessoas tão diferentes e dominadas por seus ideais realmente é um desafio, pois na maioria das vezes a mulher é reduzida a apenas o seu gênero ou sua maternidade e mesmo em um curso de Humanas preciso admitir que ainda temos um longo caminho pela frente até nos livrar desses pré-conceitos.

 

Como a universidade pode contribuir para a inserção de mulheres no mercado de trabalho?

Jéssica: Eu acredito que a universidade pode proporcionar a instrumentalização e a profissionalização das mulheres, contribuindo assim para um maior acesso dessas mulheres ao mercado de trabalho e posições de chefia, impactando nos níveis de desigualdade de gênero, ainda presente no mercado de trabalho.

Marta: A contribuição da mulher para o mercado de trabalho é muito maior depois que ela obtém uma formação acadêmica.

Rackel: Incentivar as mulheres a ocuparem os espaços nos processos seletivos e fazer parcerias com as empresas, aumentando as oportunidades de estágios.

Letícia: Formando-as da melhor forma, dando a maior capacitação e apoio possível, demonstrando através dos professores confiança na capacidade das mulheres, isso as impulsionará. Além disso, a universidade pode manter o contato com suas egressas e informá-las sobre possíveis oportunidades de emprego, ajudar e ensinar as estudantes a criar um networking que as possibilite se inserir no mercado. Não é mágica, mas é uma alternativa. Eu acredito que profissionais que se sentem verdadeiramente apoiadas e respaldadas alcançam suas metas. E isso deve ser demonstrado e incentivado no dia a dia, no tratar das professoras e dos professores com suas alunas.

Bruna: A Universidade é a porta de entrada para todos no mercado de trabalho, independente do seu gênero, nesse caso o que conta mais é a sua classe social.

 

Quais são suas expectativas para o Ensino Superior em 2021?

Jéssica: Como acredito que ao longo desse ano ainda teremos atividades remotas, as minhas expectativas são para que estas sejam mais inclusivas e que proporcionem um maior acesso e permanência de pessoas com deficiência, como também das que se encontram em situação de vulnerabilidade socioeconômica, o que impacta diretamente na evasão de estudantes no ensino superior.

Marta: As minhas expectativas para o ensino superior em 2021 são as melhores possíveis, acredito que todos farão e darão o melhor de si.

Rackel: Será tão difícil quanto o de 2020. É provável que a pandemia não termine no nosso país em 2021 e teremos mais um ano de ensino remoto, o que é extremamente prejudicial para a formação dos estudantes, mas por outro lado não se pode arriscar a vida das pessoas em aglomerações.

Letícia: Espero que minhas professoras continuem mantendo diálogo com as alunas. E espero que em outras áreas também floreça esse diálogo e cuidado que há no meu curso. Espero aprender muito e que a educação com base no respeito e acolhimento fortaleça e mantenha os alunos nas universidades nesse período. Eu vivo o que o efeito de um corpo de docentes humano e acolhedor tem sobre seus alunos e espero que isso se propague para outras áreas e seja construído no coração de mais e mais professores.

Bruna: Na verdade, tenho muitas expectativas, espero enfim conseguir concluir o Ensino Superior.

Agradecemos a participação de Jéssica, Rackel, Marta, Letícia e Bruna, mulheres que fazem parte de nossa comunidade universitária e que gentilmente compartilharam suas vivências, experiências e modos de ver e estar no mundo.

 

De acordo com o LEPSI, as entrevistadas concordaram em ter seus relatos e imagens publicados no website da Universidade Federal de Rondonópolis.

 

Bruna (24), do curso de História

Letícia Evellin (22), do curso de Letras/Inglês
Rackel Alves (24) do mestrado em Engenharia Agrícola
Marta Magali (47), do curso de Letras/Português
Jéssica Matos (25 anos), do mestrado em Educação