Aquele em que vamos pensar sobre redes
Talitta: Então, olá para você que está ouvindo o Pluricast. Tudo bem? Meu nome é Talitta, eu sou coordenadora desse projeto de extensão e hoje estamos aqui para discutir redes sociais, qual é o impacto delas na vida das pessoas. Seja bem-vindo, Flávio.
Flávio: Oi Talitta, obrigado pelo convite, por poder estar aqui com você. Eu sou o Flávio Trovão, sou professor hoje da Universidade Federal de Mato Grosso, mas já fui professor aqui da Universidade Federal de Rondonópolis, do curso de História. Trabalho com pesquisa de mídias, audiovisuais e também para bater um papo.
Talitta: Flávio, quando a gente fala de redes sociais, parece que é algo que está tão integrado na nossa vida, como se não tivesse tido um tempo antes disso, um tempo em que não existia Instagram, que não existia YouTube, né? Para quem é um pouco mais velho, que não existia Orkut, né? Essas redes sociais estão tão integradas no nosso cotidiano que muitas das vezes a gente não para para pensar qual é o impacto delas na nossa sociedade, no nosso dia a dia. Afinal de contas, impacta ou não? Ou é apenas entretenimento e a gente que está teorizando demais?
Flávio: Boa questão, Talitta. Bom, primeiro vamos lembrar que rede social não é uma invenção do nosso século. Robert Darton, um importante historiador norte-americano, tem um estudo interessantíssimo mostrando como as redes sociais já existem desde o século XVIII. O lance é que hoje as redes sociais são eletrônicas e são digitais. Então isso dá uma velocidade maior para elas e um acesso maior para elas. Mas rede social existe há muito tempo. Quantas redes sociais digitais, que é essas que nos mantêm conectados, elas impactam sim na nossa vida, tanto de forma positiva quanto de forma negativa. E aí se você tiver que escrever ou pensar algo nesse sentido lá na sua prova do Enem, vale a pena você prestar atenção em dois aspectos. Quais os aspectos positivos? Obviamente hoje a gente tem uma velocidade maior de informação, uma difusão maior de informações que podem gerar novos conhecimentos. A gente tem hoje uma capacidade de comunicação mais rápida, o que, por exemplo, num caso de saúde, facilita muito. Então tem uma série de benefícios que a conexão, a conectividade digital, as redes sociais nos trazem. Permite que pessoas que estão distantes possam se comunicar, se ver, conversar. Isso facilita muito a vida, o trabalho remoto para muitas pessoas se torna uma opção importante quando não poderiam se deslocar até outros locais para trabalhar. Então temos uma série de vantagens. Só que também, como tudo, tem os seus problemas, as suas dificuldades. Que dificuldades? Primeiro a gente vê um aumento da ansiedade, sobretudo entre os mais jovens. Um aumento da ansiedade porque a velocidade da conexão das redes sociais é uma e a velocidade da vida é outra. E às vezes a gente quer que a vida aconteça na mesma velocidade que a conexão das redes sociais. Isso acaba gerando uma ansiedade muito grande. Então, às vezes, eu posto alguma coisa, eu quero uma resposta imediata daquilo. Mas as pessoas têm suas vidas, elas vão acessar aquilo em outro momento, vão ver em outro momento, e talvez a resposta não venha imediata. Isso que a gente ainda está falando de conexão. Vamos jogar para algo da vida concreta. Você vai fazer seu Enem. Vai fazer sua prova. O resultado vai sair daqui a 10, 15, 20 dias. Como é que eu faço para esperar tudo isso? Então a gente também vai aprender que o tempo da vida é um e o tempo da rede é outro. Outra questão que vale a pena prestar atenção é o que hoje vem sendo chamado de hiperconectividade. O que é isso? As pessoas estão conectadas em duas, três, quatro telas ao mesmo tempo. Estão super conectados. Então, ao mesmo tempo, está assistindo uma TV, está ouvindo um rádio e está ainda na rede social. Isso gera um estresse mental. Isso pode gerar cansaço mental, cansaço visual. E tem um problema muito recente que é… a questão da saúde mental, como isso interfere na saúde mental. Então, a pessoa nem percebe que, por vezes, vendo lá uma, duas horas de Instagram, ela pode estar se estressando, ela pode estar se estressando visualmente, ela pode estar se cansando, dormindo menos, perdendo horas de sono, de relaxamento, deixando o cérebro acelerado, né? Então, a gente também tem que se desconectar para a gente poder relaxar um pouco, né? Então, eu penso nessas duas coisas, o lado positivo e o lado aí, digamos, não chega a ser negativo, mas o lado que merece cuidado.
Talitta: Bom, eu sempre falo que nenhuma tecnologia, seja ela analógica ou digital, ela em si é boa ou ruim. A gente tem usos dessa tecnologia. E quando você estava falando sobre os aspectos, digamos assim, positivos, eu fiquei pensando ao mesmo tempo que esses mesmos aspectos positivos podem ser negativos. Como, por exemplo, a gente tem um volume maior de informações, mas ao mesmo tempo que informações são essas que estão disponíveis. A gente tem a possibilidade de poder se conectar e falar com pessoas que estão à distância. Mas, ao mesmo tempo, às vezes a gente faz isso dentro da nossa própria casa. Então, uma pessoa está em um cômodo, você está em outro, e ao invés de você ter uma interação analógica, física, presencial… você resolve mandar um WhatsApp para as pessoas. Então, ao mesmo tempo que aproxima, também afasta quem está muito próximo. Então, mesmo esses aspectos que são positivos, de determinada maneira, podem ter os seus vieses negativos. Como, por exemplo, a questão desse volume de informação e a questão da desinformação também.
Flávio: Exato.
Talitta: E aí, rede social contribui para isso, para essa questão da desinformação? Porque parece que a gente tem acesso a tanta informação que é meio que contraditório, né?
Flávio: Sim, interessante o que você está trazendo. Aí a gente vai falar de duas coisas então, de desinformação e de saúde social, que eu acho que são os dois pontos que você está tocando. Quanto à informação e à desinformação, a gente nunca teve tanta informação acessível na humanidade. Eu estou lembrando aqui do romance do Humberto Eco, O Nome da Rosa, que tem o filme, para quem não conhece, é um livro que hoje em dia as pessoas têm mais dificuldade em ler, é um livro muito interessante, mas tem o filme também. E O Nome da Rosa é um romance que justamente vem… problematizar o acesso à informação no fim da Idade Média, quando um monge achou que ler Aristóteles, ler a comédia de Aristóteles era um problema social, podia gerar uma convulsão social, e aí, enfim, se cria todo um problema para quem tocasse naquele livro. Eu não vou contar o filme, não vou dar spoiler, porque, enfim, hoje em dia a gente não pode mais contar o fim do filme.
Talitta: Mesmo que o filme tenha, sei lá, 30, 40 anos.
Flávio: Pois é, mas tem gente que não assistiu. Mas vai descobrir por que não podia ler a comédia de Aristóteles.
Talitta: Aliás, descubram.
Flávio: Descubram isso, vendo o filme. Então, uma tentativa de controlar as informações, uma tentativa de manipular as informações também não é algo do nosso tempo. Isso sempre existiu. O fato é que hoje isso acontece em um volume muito grande e em uma velocidade muito grande. Então, assim como a gente tem acesso a muita informação, vem muita desinformação. Informação desencontrada, desconexa, por vezes, por incoerência de quem produz, por alguma falha não intencional, mas muitas vezes por problemas intencionais sim. Então existe uma indústria hoje que vive de espalhar, de disseminar informações incorretas e falsas. que sobretudo tenham ali alguma vantagem política, até alguma vantagem para um grupo A ou para o grupo B, que ajudem a atacar o grupo A ou o grupo B. Então a gente tem que tomar cuidado com o acesso, a quantidade de informação, não o acesso, a quantidade de informação, mas sobretudo a quantidade de desinformação. E aqui, Thalita, as maiores vítimas da desinformação são justamente os mais idosos. Porque eles, chegou no celular deles, eles acreditam. Porque às vezes recebe de uma pessoa que gosta muito, recebe de uma prima, de um primo, de um amigo que confia muito. Chega aquela informação, o fato de ler, de estar escrito, o fato de ver um vídeo, isso dá uma veracidade à informação muito maior. Então a pessoa acaba sentindo que o que ela está recebendo, e normalmente… Esse é um dado importante também. A indústria da desinformação, ela inventa coisas, mas a partir de dados mais concretos. Os dados que ela usa para inventar a desinformação são dados que ela obtém, sobretudo, daquele monte de aceite que nós damos nas redes e as redes passam a monitorar um pouco o que a gente pensa, o que a gente mais gosta, o que a gente mais acessa. Então, a desinformação, ela vem também, digamos assim, meio que como uma luva para você. Então… você já não gosta de determinado grupo social, você não gosta de determinada música, você não gosta de determinado comportamento social, já a própria rede direciona para você algumas notícias sobre aquilo e entre elas podem ser notícias falsas. Isso gera um problema imenso, um desserviço imenso na sociedade. E o segundo ponto é que A OMS, a Organização Mundial da Saúde, junto com a ONU, estão apontando para um novo problema que nós estamos vivendo hoje, que é o problema de saúde social. O que é isso? A pessoa fica hiperconectada, então ela trabalha em home office, ela tem as conexões, ela tem as redes sociais, mas ela está cada vez mais isolada e sozinha. e vai tendo cada vez mais dificuldade de interação na vida real, que é isso que você estava falando. Às vezes, dentro da própria casa, eu mando um WhatsApp para alguém na minha casa, ao invés de falar com a pessoa e interagir diretamente com ela. Isso vem trazendo um problema de isolamento e dificuldade de criação de amizade, e agora esse problema da hiperconectividade da saúde social está atingindo principalmente a faixa etária dos 30 aos 50 anos, que é a nossa faixa etária, né? Por quê? Porque nessa faixa etária é muito difícil você fazer novas amizades. Se você já não trabalha no escritório, você já não trabalha num lugar público, você trabalha em home office. Suas relações são sempre virtuais, suas reuniões são virtuais. As suas relações são relações de redes sociais. A chance de você ter amigos reais para um jantar, para sair, para tomar uma cerveja, para bater um papo, para ir para uma festa é cada vez menor. E isso vem aumentando então o problema do isolacionismo, do isolamento. E aí vem com isso, depressão, vem problemas sociais, de saúde social, problemas de agorafobia, que é você não conseguir ficar em lugar público por muito tempo, se sentir desprotegido, ameaçado quando estiver diante de multidões ou de grupos mais volumosos. Então, tem uma série de problemas no campo da saúde mental que estão tendo efeito agora também social. Então, hoje a gente trabalha com a perspectiva de saúde mental e saúde social juntos. Tem que integrar isso e isso é um dos efeitos complicados que o excesso de tecnologia está trazendo no nosso cotidiano.
Talitta: Flávio, quando você fala da questão da desinformação, eu acho que tem um outro aspecto aí para ser considerado, que é o fato de que muitas das vezes as pessoas só estão buscando informações em um único veículo que é a rede social.
Flávio: Exato.
Talitta: E aí, quando você tem esse monopólio de onde você busca informações, de como você se informa, você acaba não tendo o acesso ao contraditório.
Flávio: Exato.
Talitta: E aí, para quem está nos ouvindo, volta no Pluricast sobre inteligência artificial, sobre algoritmo, sobre bolha social, para entender como é que a gente está consumindo mais do mesmo. Porque o algoritmo vai te oferecendo a partir da… Do que você clica, do que retém a sua atenção. Das suas escolhas. Das suas escolhas, você vai meio que educando o algoritmo para o algoritmo te oferecer mais do mesmo.
Flávio: Exato.
Talitta: E aí, quando a gente recebe isso de um amigo, recebe isso de um parente, a gente tem uma grande probabilidade de aceitar aquela informação como sendo verdadeira. Então, não buscar informações, por exemplo, em livros, em jornais, em outros canais, também pode favorecer essa questão da desinformação. E a gente sabe que o tempo de tela tem aumentado muito, principalmente depois da pandemia, ou a partir da pandemia, né? Quando a gente foi super estimulado a consumir, porque afinal de contas a gente não podia sair, né? Então era live, era aula, tudo era por tela, né? E aí a gente vem para esse contexto pós-pandêmico, que pode parecer que está tudo normal novamente, mas nada é normal, né? que o tempo de tela aumenta muito. A gente tem estudos falando sobre a questão dessas novas mídias super rápidas, né? A questão da dopamina, como é que as pessoas ficam… Literalmente, gente, as pessoas ficam viciadas na liberação de dopamina rápida Aqui que tem os vídeos curtos do TikTok, do Instagram e de tudo mais. E aí junto o que você falou sobre a questão da dificuldade, inclusive você tem outras fontes de dopamina, como por exemplo a amizade.
Flávio: Sim, o esporte, a amizade. Dentre outros, né?
Talitta: E aí você acaba nessa questão do isolamento. Como é que isso impacta quando a gente pensa num campo mais amplo, por exemplo, em lugares em que a interação precisa ser presencial, como é o caso das escolas? Tem impactado, atualmente o celular é proibido nas escolas, mas como é que a gente chega nesse contexto de ter que proibir celular nas escolas? Tem a ver?
Flávio: Tem tudo a ver. Você toca num aspecto importante que são as IAs. As IAs são uma outra revolução dentro dessa questão digital, do mundo digital, do mundo conectado. A IA é uma ferramenta incrível. Eu uso muito IA. Uso IA para preparar aula, uso IA para várias coisas. A gente só tem que lembrar de uma coisa. A IA opera de uma forma lógica. A IA opera de uma forma onde ela conecta logicidades. E nem tudo é lógico sempre, nem tudo sempre é racional. É lógico, existe o irracional, existe o inconsciente, existe o não lógico, o ilógico. Então a gente tem que cuidar também para não transformar Iá no novo oráculo. Senão a gente vai também perdendo capacidades que é de sair do campo da lógica também. Daquilo que é necessariamente lógico, cronológico. Então… A IA é muito importante, mas tem que cuidar, sobretudo, pessoas que acabam perguntando até como viver para a IA. Tem um fenômeno que está acontecendo no campo da psi, que muita gente está fazendo terapia com IA, o que é um problema sério, porque… as terapias, as psicoterapias, a grande questão é que você tem um outro ser humano, também falho, também humano, com vários problemas com você, te escutando, e ali uma possibilidade de troca. Se você joga isso para uma ferramenta que parte do campo da lógica, onde fica o humano aí? Então você perde uma essencialidade importante desse campo. Então, esse é um alerta que a gente tem que fazer, mas destacando a importância que a IA vem trazendo para o campo educacional, por exemplo. Ela é muito interessante desde que a gente saiba como usar. Eu sempre falo para os meus alunos, não tem problema usar a inteligência artificial, desde que fique claro de quem é a inteligência e quem é o artificial.
Talitta: Ou seja… Desde que seja um instrumento para a sua inteligência natural.
Flávio: Exato. Uma ferramenta para ajudar. Mas o ser inteligente sou eu. O ser artificial é a máquina. Isso tem que ficar muito claro. Então, eu tenho que ser mais inteligente que a máquina. Agora, a máquina é uma ferramenta que vai facilitar meus trabalhos, vai levantar coisas que eu levaria uma hora levantando de dados, ela pode levantar mais rápido.
Talitta: É o propósito, né? É o propósito dela, exatamente. A gente permanece humano, a gente permanece, teoricamente, como ser pensante.
Flávio: Exato.
Talitta: E é mais uma ferramenta, como outras tantas.
Flávio: Exatamente. E aí a gente chega nessa questão da educação. Veja, hoje está proibido o celular na sala de aula. Isso é muito polêmico, é um tema muito polêmico, porque há educadores que defendem o uso do celular em sala de aula, porque em última instância é um computador na mão do estudante. Então, Em tese você poderia fazer muita coisa interessante com isso, mas o problema é que junto com o celular vem, não vem só um computador que vai te ajudar na educação, vem câmera fotográfica que vai fotografar, que vai filmar, que vai… por vezes criar fake news, que vai criar, eu recorto um pedaço da realidade e aquele pedaço da realidade eu posso distorcer e transformar e acabar com a vida de alguém com aquilo, seja de estudante, de professor, de pai de aluno, etc. Então, é um problema sério mesmo, sobretudo pela distração. Como você falou muito bem, sobretudo os reels, esses vídeos muito rápidos, eles são geradores de dopamina, eles geram descargas de dopamina, e a dopamina é viciante, como outras substâncias, até como a nicotina, por exemplo, que vicia, que você vai precisar dela de tempo em tempo, de uma descarga dela, você precisa de tempo em tempo de uma descarga de dopamina. Se você ficar numa descarga intensa de dopamina para o sujeito, ele não vai conseguir se concentrar em seguida, não vai querer se concentrar em outra coisa. Vamos imaginar, por exemplo, uma leitura do livro em sala de aula. Exige concentração, exige silêncio, exige uma atenção. Então, tudo isso se prejudicaria, digamos, pelo uso excessivo de celular. Então, nesse ponto, é importante realmente que o celular esteja fora da sala de aula nesse aspecto. E aí, gente, lembrando, outras atividades da nossa vida geram também dopamina.
Talitta: Ah, claro. Mas, digamos que não é uma cápsula instantânea, né? Correr gera dopamina. Pois é. Mas correr…
Flávio: Comer gera dopamina, né?
Talitta: Mas correr requer ali uma disciplina também, né? Requer outras coisas. Então, a gente tem dopamina. O problema não é a dopamina na vida das pessoas. Muito pelo contrário. Que a sua vida tenha dopamina nas doses necessárias.
Flávio: Exatamente. E um último aspecto que eu acho que vale a pena a gente refletir aqui é… O uso do celular na sala de aula. Então, realmente, a proibição dele é mundial, não é só no Brasil hoje, isso vem afetando o mundo todo. Há países como a Finlândia, que tem um alto nível de desenvolvimento educacional, que estão cancelando todos os usos de tecnologia e voltando para caneta, papel e lápis. Estão percebendo que há habilidades no uso de lápis, caneta e papel e desenvolvimentos cerebrais importantes no uso desses materiais. Que são também tecnologias, não são tecnologias digitais, mas é uma forma de tecnologia. Total, o papel é uma tecnologia importantíssima. inclusive na história da comunicação, das mídias, então há um papel fundamental do papel, o papel do papel, então há lugares que estão adotando o que seria modelos conservadores, digamos assim, ou antigos de educação, E, por outro lado, por exemplo, aqui no estado de Mato Grosso a gente tem, não tem mais o livro digital, tem o Chromebook, o livro lido no notebook, numa forma de computador que é o Chromebook. E aí o que a gente escuta dos estudantes que estão fazendo estágio, sobretudo os nossos estudantes da universidade que estão fazendo estágio das suas licenciaturas, é que o estudante usa o Chromebook muitas vezes para navegar como se fosse um celular. Então olha aqui que coisa esquisita, a gente proíbe o celular, mas a gente dá um computador aberto para o estudante para que ele acompanhe a aula, para que ele leia o material, para que ele interaje com o material didático, agora digitalizado, mas isso não impede, e é muito difícil o professor controlar, 30, 40 acessos a um computador ao mesmo tempo. É muito difícil a instituição escolar dar conta disso. Então, também a gente pensar que não é somente levando a tecnologia para a sala de aula, não é só a presença do material tecnológico na sala de aula que faz a educação mais ou menos tecnológica, que faz a educação melhor ou pior.
Talitta: Que inova a educação.
Flávio: Que inova a educação necessariamente. Não, não necessariamente isso acontece. E aí a gente tem que lembrar do David Buckingham, quando ele fala sobre a questão do letramento digital, do letramento midiático. Então a gente tem que aprender a ler as mídias. a partir da sua lógica, da sua organização, da sua linguagem, aprender a ler um filme, aprender a ler uma rede social, aprender a ler uma música, aprender a ler um canal do YouTube, para a gente, digitalmente, a gente aprender a ler mediaticamente, ou seja, ter instrumentos para fazer essa leitura crítica, para a gente saber também o que nós estamos consumindo. Para a gente entender um pouco melhor, para não ser um consumidor passivo, mas ser um consumidor ativo. Então, eu sei o que eu estou consumindo, eu sei por que eu estou consumindo aquele material e isso me interessa. Então, hoje em dia, um dos campos que as pesquisas na área de mídias, multimídias e audiovisualidades vêm apontando é a necessidade do letramento midiático e do letramento digital. que eu acho que é um campo que aqui no Brasil a gente ainda está muito aquém, está muito cru, está começando essas discussões e a gente precisa ampliar muito isso. Isso tem que chegar na sala de aula.
Talitta: A BNCC, inclusive, fala muito dessa questão do letramento, né? Letramento midiático, tecnológico e tudo mais, mas a gente ainda está caminhando, né? Muito, muito.
Flávio: Sim, primeiro nós precisamos levar isso a sério, né? Nós temos que entender que mídia é entretenimento, mas é entretenimento sério no sentido de um objeto também a ser investigado, analisado, trabalhado e que mídia, filme, audiovisualidades, música, tudo isso são produtos culturais que carregam pedagogias culturais, elas carregam ensinamentos, elas carregam, por vezes, informações e ensinamentos que, se a pessoa não tiver uma posição crítica para o que ela está ouvindo, o que ela está vendo, o que ela está recebendo, ela pode… simplesmente está consumindo um comportamento sem percebê-la, está consumindo um conhecimento, um saber, uma informação que pode levá-la a ter atitudes que ela não teria se não fosse com o uso daquela mídia. Então, a gente tem que ficar atento às pedagogias culturais que os produtos industrializados da cultura transmitem E aprender a ler isso de forma mais crítica através de letramentos digitais. E aí tem que levar a sério essas coisas, não achar que tudo é brincadeira.
Talitta: E Flávio, para finalizar nosso bate-papo aqui, pensando na quinta competência que é solicitada ali no Enem, sempre se fala da proposta de uma intervenção para este problema. Tem alguma proposta de solução para esse problema que a gente possa pensar para uma redação do Enem? Claro, a gente não tem resposta pronta, não tem solução fácil, mas dentro da estrutura do Enem, como é que a gente pode pensar em propostas que sejam individuais ou coletivas que possam minimizar esse problema, que possam dar algum tipo de resolução para esse problema? no caso das mídias sociais, o impacto social delas.
Flávio: Eu acho que a gente pode pensar nisso que nós estamos conversando nesses últimos tópicos aqui. Primeiro, pensar que somente a proibição das mídias e do uso de determinados recursos tecnológicos não resolve o problema, mas que é necessário que se estude, que se ensine como usar esses recursos. Então, vamos ensinar na escola como usar melhor o celular, como usar melhor a inteligência artificial. Então, que as escolas assumam isso A educação, o campo educacional, assuma isso também como um objetivo de ensino, um dos objetivos de ensino. Então, a gente aprender a usar as mídias na escola, aprender a usar as mídias no campo educacional, isso é um aspecto. Não somente proibir, proibir é um primeiro passo, eu acho, um primeiro passo, mas é ir além. E a gente… Aprender, eu acho que uma coisa que tem que se propor é como que a educação tem que abarcar esse campo. Então, é isso que a gente estava falando, aprender um letramento digital, aprender o letramento midiático, que em outras palavras é a gente aprender como usar de uma forma crítica isso. Então, que na escola também seja um lugar de ensino e de aprendizagem do uso crítico das mídias, do uso crítico das redes, né? E quando a gente está falando de crítica, nós não estamos falando necessariamente de falar mal. Quando nós estamos falando de crítica, é saber por que está usando. Não quer dizer que não pode usar, é o contrário, é saber por que eu estou usando. Eu estou usando de um modo que eu me sinto seguro, eu me sinto confiante do que eu estou fazendo, eu sei o que eu estou fazendo, ou estou usando de uma forma completamente passiva, que eu não tenho a menor ideia de onde está vindo aquelas informações que estão me dizendo e eu vou acreditando naquilo tudo sem nenhum crivo, sem nenhuma percepção. Então, bem didaticamente, eu acho que poderia propor que a escola amplie seu campo educacional para… as mídias e as tecnologias digitais, que isso se torne também um objeto de investigação na escola e de ensino na escola, e que é uma coisa que a gente vem defendendo, a educação midiática e a educação digital.
Talitta: É claro, Flávio, que a escola tem um papel fundamental, mas também cada indivíduo pode ir atrás dessas informações, de letramento, de saber o que está consumindo. Eu brinco que é consumir e não ser consumido. Exatamente. Quem é o sujeito do verbo aqui tem que ser a pessoa. E é claro, pensar em alternativas e outras formas de também se relacionar para além do meio digital. Quero te agradecer por esse Pluricast tão interessante que a gente já está para gravar há algum tempo. Finalmente deu certo.
Flávio: É verdade.
Talitta: E eu tenho certeza que se esse tema cair na prova do Enem, mas para além da prova do Enem, se cair na vida, é uma discussão que precisa ser feita para a vida. Tem certeza que quem está nos ouvindo vai se dar muito bem.
Flávio: Eu que agradeço, que bom que deu certo da gente finalmente se encontrar aqui para a gente gravar. É sempre uma alegria estar com você aqui no Pluricast, com todos os outros colaboradores desse projeto que é tão interessante, esse projeto de extensão tão importante da Universidade Federal de Rondonópolis. Quero agradecer o convite e desejar para quem vai usar talvez alguma dessas coisas que nós conversamos aqui no Enem, Um excelente Enem, uma excelente redação. Boa sorte para você. Depois use a sua nota do Enem para vir estudar com a gente em alguma universidade federal. Aqui em Rondonópolis, a Universidade Federal de Rondonópolis. Lá na capital temos a Universidade Federal de Mato Grosso. Venha estudar com a gente. Porque quem sabe daqui a um tempo é você que vai estar aqui falando para os outros um pouco da sua experiência, do seu estudo. Então bom Enem para todo mundo, boa sorte e um abraço para todos.
Talitta: E aí, gostou? Quer saber um pouco mais? Então acesse o Instagram, arroba pluricast.chs, porque lá a gente deixa os links para materiais de apoio, para transcrição desse áudio também. Tudo isso pensando em você se dar bem no Enem. Quem sabe, ano que vem, você venha ser nosso estudante aqui na universidade. No caso, na UFR ou na UFMT. Exato. Vai ser bem recebido em qualquer uma das duas. E aproveita e acessa os pluricasts sobre os cursos do Instituto de Ciências Humanas e Sociais. Estão disponíveis lá no site do LAPRAS. Tem link aqui na bio. A gente se vê numa próxima. Até mai