Aquele que o conhecimento vem da ancestralidade… (Racismo religioso e relações étnico raciais)
Talitta: Então, olá para você que está ouvindo o PluriCast, tudo bem? Meu nome é Thalita, eu sou coordenadora desse projeto de extensão e hoje estamos aqui para falar de um dos mais importantes temas que cai sempre no Enem. Hoje a gente vai falar sobre intolerância religiosa.
Ana Carolina: Olá, tudo bem? Meu nome é Ana Carolina da Silva Borges, eu sou professora de História da África, vinculada ao Departamento de História, professora de junta. Atualmente, estou cedida ao Ministério dos Direitos Humanos, trabalhando na assessoria e verdade da memória, tendo como recorde, sobretudo, a coordenação da memória e verdade da escravidão e do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, também conhecida como CGMET. Sou ativista negra, mãe da Alice, mãe da Aurora, sou batuqueira, sou também, obviamente, macumbeira. E hoje eu acho que é um momento especial para a gente conversar um pouquinho sobre esse tema sensível que está no dia a dia da gente. Muitas vezes a gente não sabe como lidar com uma responsabilidade que, de uma certa forma, é social também.
Talitta: Bom, vamos começar definindo o que é intolerância religiosa. Porque a gente vê muita gente falando que é mimimi, falando que não tem nada a ver, que tudo é preconceito. Então, vamos lá pensar o que é essa intolerância religiosa e como que ela se manifesta. Como é que pode ser identificado? E aí, isso serve não apenas para você se sair bem ali na redação do Enem, mas para a sua vida.
Ana Carolina: A grande questão, aliás, que demorou bastante tempo para a gente… Entender que a intolerância religiosa hoje pode se configurar como crime é justamente a gente pensar como que ela se dá como um ato racista. Então, acho que a primeira coisa que a gente tem que colocar é que a intolerância religiosa, para além… de uma pessoa que não gosta, que não aceita, muitas vezes que persegue as religiões afro-brasileiras de matriz africana, a gente também tem, de uma certa forma, como maior motivação, o próprio racismo, né? Acreditando que essas religiões, ao virem de África, ao virem da população preta, o trazerem… Deuses, referências negras, elas merecem de uma certa forma ser criminalizadas e endemonizadas. Isso historicamente foi assim no Brasil desde o processo da colonização até os dias atuais. E a intolerância religiosa é todo o ato que discrimina, que persegue. e que muitas vezes usa da violência física para poder destruir terreiros, para poder desqualificar pessoas que apresentam algum tipo de mediunidade ou praticantes dessas religiões. Em outras circunstâncias, também é admitir que pessoas que vêm desse universo estão com pactos com um diabo, pactos com um demônio, a gente tem essa estigmatização, que ela é histórica, mas que muitas vezes ela é reverberada hoje. Então isso, de fato, hoje a gente já pode dizer que, embora a gente já tenha avançado bastante, ainda é bastante comum na nossa sociedade essas práticas. E aí, Ana, tem tudo a ver a gente pensar nesse contexto histórico, essa forma de colonização que, para alguns, pode parecer que já passou, que é passado, e que esse passado não chega até a gente, mas que ainda está aqui reverberando no presente. Exatamente. Como prática histórica, e automaticamente sendo historiadora, a gente entende que A colonização é como se fosse um motivador, porque a própria estrutura dela já não admitia outras práticas religiosas que não fossem as cristãs. Então, a gente tem aí um processo de perseguição histórica, muitas vezes permeados por mortes, como é o caso de todo o processo da importância dos jesuítas que estiveram aqui no Brasil. E muitas vezes as pessoas que praticavam essas religiões eram acusadas de bruxaria, elas eram acusadas de estarem… próximos do demônio. E a gente tem uma regulamentação também, na própria colonização, que não dava autonomia para a população negra escravizada terem esse tipo de prática, mesmo que fosse nas senzalas ou mesmo que fosse nos lugares que eles ocupavam, fossem os ambientes urbanos, fossem os ambientes agrários. E para além disso, a gente pode pensar também que as religiões de matriz africana, ela se perpetuou no Brasil de várias formas. Ela tem uma importância central que a gente costuma dizer que é o direito à memória. Então, coisas que não podiam ser faladas de África, coisas que muitas vezes eram inadmissíveis naquele momento, porque afinal de contas as pessoas escravizadas não poderiam falar suas línguas de origem. não poderiam ter referências étnicas de África, tinham que ser cristãos, eles tinham que receber um novo nome, passava pelo batismo. Então, essa violência toda de uma negação com o seu passado fez com que, para eles construírem referências positivas ou contarem suas histórias, os terreiros, assim como várias outras práticas culturais que também tinha como rumo uma África positivada, ela reverberou durante muito tempo aqui no Brasil. Então, é importante a gente sinalizar que as religiões de matriz africana, para além de práticas culturais, elas têm dois horizontes. O primeiro é um horizonte da ancestralidade, da espiritualidade. Então, elas trazem referências de Deus e elas trazem referências de personagens históricos, reis, rainhas, reinos. Elas trazem referências também, muitas vezes, de ofícios religiosos. A gente está falando de rituais que precisam de roupas, rituais que precisam de alimentos, rituais que precisam de líderes. Então, tem todo esse campo da representatividade e a gente não pode esquecer também um outro elemento que está bastante presente, para além dessas práticas religiosas, culturais, essas memórias que são feitas, são as histórias, a autonomia da população negra falar sobre si, falar sobre seu passado e não se desvincular do continente africano. Então, isso, seja para a colonização, seja para o período imperial, seja mesmo para a formação da nossa República brasileira, ela era vista de forma muito negativa, tanto pelas instâncias institucionais do nosso país, que acreditavam que essas religiões não fortaleciam e tampouco davam uma moralidade para a população brasileira, um tipo de moralidade não só cristão, mas uma moralidade também… um pouco fincada em uma perspectiva de branqueamento da população brasileira. E se a gente parar para pensar na própria formação da República, para além do branqueamento, a gente tem a política de higienização. Higienização essa que tem um impacto significativo, tanto nas práticas de religiões africanas, como em quem as frequentava. Então, A gente pode pensar, só para vocês entenderem, a Umbanda, que nasce ali na formação da Primeira República, no Rio de Janeiro. Só um exemplo. Ela tem vários tipos de linhas e entidades que são praticadas internamente. Nos anos de 1940, a Umbanda começa a ser perseguida e funda-se uma mesma religião, só que agora com entidades e com… linhas muito mais branqueadas e que proibia as entidades e as linhas da Umbanda, embora fosse o mesmo prefeito, Umbanda é espírito, dizendo que esses seres eram seres não só negros, mas inferiores, e passam, então, a ter incorporações ou mesmo recebimento de entidades, que eles vão chamar, então, de… de evocação de pessoas que eram médicos, pessoas que eram brancas, pessoas que eram europeias. Então, a gente está falando de um processo de branqueamento das próprias religiões, apropriação e depois branqueamento das religiões afro-brasileiras de matriz africana. E cada vez mais essas religiões, elas vão sendo então estigmatizadas. E na maioria das vezes, esse processo de estigmatização faz com que as pessoas que a praticam não consigam viver livremente e abertamente seus rituais. A gente pode pegar uma outra proposta que é sinalizar a matança dos animais, os sacrifícios que tem nas religiões de matriz africana e afro-brasileira, como se, por exemplo, a nossa sociedade no Natal não se alimentasse de frango, se não se alimentasse de porcos na virada do ano. Então, tem essa projeção de todas as coisas que são justificadas para perseguir essas religiões, elas fossem justificadas, sobretudo, por uma moralidade que é contraditória e, ao mesmo tempo, ela é enegrecida, endemonizada e tida como se fosse, muitas vezes, uma aberração, uma maldade absoluta por parte de quem as pratica. Eu só queria gostar de pensar em um adendo, que eu acho que dá para a gente colocar aqui, é que as religiões afro-brasileiras e de matriz africana, no campo científico, por exemplo, que também tem um racismo em relação a essas religiões, elas não admitem essas religiões como religião. Acredita-se que essas religiões são rituais, muitas vezes são identificadas como se as religiões de matriz africana ou afro-brasileira fossem incompletas, porque elas são orais. Elas são cantadas, elas não são escritas, elas não são repetitivas, elas não são hierárquicas, elas têm uma outra forma de pensar a sociedade. E isso impediu durante muito tempo que essas práticas, principalmente esclarecimento, uma visão mais crítica sobre essas religiões, não fossem, por exemplo, colocadas em conteúdos curriculares, tanto nas escolas universitárias, secundaristas, quanto no ensino fundamental e médio. Então, na própria ciência, há um racismo envolvendo essas religiões, uma definição muitas vezes ocidentalizada, branqueada, que vem muito mais do mundo da escrita e que não admite, por exemplo, essa presença histórica na nossa cultura e no nosso dia a dia.
Talitta: Teoricamente, se a gente fosse seguir a Constituição brasileira, ali no seu artigo 5, A gente partiria do pressuposto que toda e qualquer pessoa tem liberdade religiosa. É o direito da pessoa de não ser privada de direitos por motivos religiosos, filosóficos e políticos. Mas a gente sabe que essa lei, ela… ela na prática não se efetiva. Então, é necessário que sejam criadas leis específicas para combater o racismo religioso, e o racismo de uma maneira geral. Então, quais políticas públicas e leis a gente pode pensar para o combate de algo que é estrutural da nossa sociedade?
Ana Carolina: A primeira coisa que a gente pode pensar, que foi um avanço muito grande em relação à intolerância religiosa, é que para os próprios praticantes, intolerância ainda é um termo muito apaziguador. Ele é um termo muito dócil para a intensidade da seriedade que envolve ainda essa perseguição até nos dias de hoje. A gente costuma dizer, por exemplo, que o certo seria racismo religioso, que seria uma categoria, uma definição, que ela estaria mais condizente à prática das pessoas que não aceitam. Não é só uma tolerância, é uma perseguição, porque é um racismo que envolve uma prática religiosa. Se for pensar por esse lado, o racismo sendo crime, o racismo religioso também seria um crime. Exatamente. Então, hoje, a intolerância religiosa é colocada como racismo. Por isso, ela agora admite a prisão de pessoas e mesmo multa. Tinha muito essa projeção de multa e depois ela foi retirada e hoje é um crime que muitas vezes a gente pensa no sentido de prisão mesmo. É claro que a gente, assim como o racismo, a gente conseguir provar que essas práticas são oriundos de racismo é difícil, porque a definição legal não dá brecha para as situações e circunstâncias que acontecem. As pessoas não falam, eu não gosto das religiões afro-brasileiras ou as religiões de matriz africana, Porque é uma memória, de uma certa forma, da diáspora e das populações escravizadas ou da África. Eles jamais vão admitir isso. Eles vão muito mais sinalizar essas definições, essas práticas moralizantes. E a maioria das vezes, quando essas coisas acontecem, elas acontecem na calada da noite. São pequenos terreiros que são destruídos, imagens que elas são… quebradas, né? E quando tem essas práticas nas ruas, a hostilidade não é muito recorrente. Pessoas que falam coisa do demônio, coisa do diabo, mas são pessoas que a gente não tá ali com uma camerazinha pra filmar, nem pegar a placa do carro, às vezes a gente nem sabe quem que é a pessoa. Então, elas vêm com uma certa frequência, mas as pessoas, elas são cobardes. O racismo no Brasil, ela tem essa… de que as pessoas não são racistas, porque também tem uma marca histórica. A gente é um tipo de colonização que a gente chama de assimilação. Então, o nosso país não é segregacionista, como, por exemplo, a África do Sul, os Estados Unidos. onde você tem uma projeção muito mais de separação das raças, hierarquias da raça, enquanto aqui no Brasil a gente tem a ideia de assimilação, a falsa ilusão de que as três raças se uniam e elas conseguiram se integrar, obviamente, com uma projeção harmoniosa na qual o homem branco europeu se coloca como o grande responsável, o grande gestor, o grande propositor, mas esquece de dizer que, embora a gente seja a maioria da população brasileira, as nossas ocupações, sejam profissões, sejam os nossos salários, muitas vezes, seja no campo de admitir o nosso direito, ela não é garantida. A punição, sim, a gente costuma dizer isso, a punição, ela está muito presente na gente, né? A polícia está muito presente, as prisões cheias de pessoas negras, elas estão muito presentes, mas os direitos, ela é um pouquinho mais complexa quando envolve a população negra, justamente porque aí a gente cai no campo da cidadania, a gente cai no campo também dos direitos humanos, né? que é um debate mais profundo sobre o que é a ideia de cidadania no Brasil.
Talitta: Apesar da maior parte da população, de acordo com os dados do IBGE, ser preta, ou seja, a gente tem uma população prioritariamente negra, essas políticas direcionadas são vistas como políticas para grupos minoritários ou para grupos em situação de vulnerabilidade. A escola, enquanto uma instituição desta sociedade que tem o racismo na sua estrutura e é necessário que seja reconhecido que há um racismo que é estrutural, como é que… a gente pode identificar essas questões, não apenas do racismo religioso, mas do racismo de uma maneira geral dentro do ambiente escolar. E qual que é o impacto disso, não apenas para quem sofre o racismo, mas para a sociedade como um todo?
Ana Carolina: Antes de responder isso, eu vou responder uma das questões que me foi colocado anteriormente, Thalita, que é a implementação de políticas públicas, né? A implementação de políticas públicas, principalmente as que a gente trabalha lá no Ministério, e aí eu posso falar porque eu tenho um pouquinho de experiência sobre isso, né? Eu fui responsável por quatro meses, antes de ocupar o cargo que eu estou ocupando, pela implementação de ações afirmativas e políticas públicas dentro da universidade, do qual a gente tinha como público quilombolas, estudantes indígenas e as pessoas não cis, né? obviamente que sem desvincular disso também os PCDs. E depois no Ministério, agora eu tenho me aproximado, nos últimos netos lá desde 2023, me aproximado um pouco mais desse universo da população negra a nível nacional. Então, a gente fala que quando envolve, por exemplo, as religiões de matriz africana e afro-brasileira, a gente começa a perceber dois universos. Primeiro, os babas, ou mesmo os babalorixá e alorixá, ou a gente pensar um pouco esse universo das mães de santo e pais de santo, normalmente eles são líderes comunitários. Eles são uma referência para a própria comunidade que eles moram. Então, eles têm uma ação política dentro do bairro, na maioria bairro negro, com um índice muito grande de criminalidade e um índice muito grande de abandono escolar. Essas pessoas dentro do bairro não são só responsáveis pelas festas ou responsáveis pelos rituais religiosos. São as pessoas que mais têm projetos sociais dentro do bairro, na maioria das vezes, sem financiamento. Isso é uma coisa que tem que ser colocada. Então, eles conseguem muitas doações. eles são as pessoas que fazem redistribuição de cesta básica de roupa, festas de santo muitas vezes, mata a fome de gente que está em uma situação de vulnerabilidade. E muitas vezes são eles que acolhem as pessoas não cis, as mulheres que apanham e passam pelo feminicídio. Então, a gente costuma dizer que a espiritualidade dessas lideranças religiosas é uma espiritualidade que se coloca também como projetos sociais, assim, aquele conhecimento, aquela sabedoria, ela não fica só no terreiro, ela é coletiva, ela é comunitária, ela tem uma ideia de nação mesmo, de comunidade. Então, são pessoas muito respeitadas dentro desses bairros e muitas vezes elas têm uma projeção, se torna uma rede que elas têm uma projeção no âmbito nacional. A gente pode dizer que premiações que vão sinalizar, por exemplo, essas Essas intervenções sociais, projetos de intervenção social, sempre tem essas líderes religiosas, na maioria das vezes mulheres, como horizonte, porque a gente está falando de religiões também que muitas vezes, dentro do continente africano, elas eram muito matrilineares. Então, elas combatem sociedades racistas e também patriarcais. A outra coisa que a gente percebe é, por exemplo, que agora tem projetos grandes, vejam bem, tem um projeto muito legal no Ministério, que é, junto com a OB, que é pegar desde os anos de 1910, 1920, sobretudo dos anos de 1940 até o ano de 1970, todas as imagens que foram pegas pela polícia. A polícia que entrava em terreiro, pegava as imagens e depois eles faziam uma apreensão dentro das delegacias. Essas imagens foram recuperadas e agora está se montando um museu e, obviamente, tentando evitar que isso volte a acontecer, sendo que é um dos crimes mais recorrentes em relação às religiões de matriz africana, que agora não é só o Estado, é a própria sociedade civil que também tem feito isso. Outra política pública que a gente pode pensar também, e que ajuda bastante, é um pouco sinalizar a importância da história que é contada nessas religiões de matriz africana. Porque a gente está falando de reinos, a gente está falando de… de pessoas que são heroínas dentro do continente africano. A gente está falando da diversidade étnica, a gente está falando de uma diversidade muito grande da relação com a natureza. A gente costuma dizer que as religiões de matriz africana são altamente ambientalistas. Afinal de contas, a gente está falando de orixás, principalmente no candomblé, que se manifestam como elementos da natureza. Então, são pessoas que quando chegam na beira do rio, elas vão bater cabeça. E quando elas veem uma montanha, elas vão caber cabeça. Porque o universo da natureza é sagrado para essas pessoas. E os rituais são muito pontuais. A gente criminaliza isso, mas a gente regulariza também. Por exemplo, a própria monocultura e a concentração de terras, o que para a gente é uma contradição, um Estado que admite isso e, ao mesmo tempo, não tem uma fiscalização mais forte sobre essas intolerâncias religiosas. Então, a gente pensar em políticas públicas para esse povo, ela pode vir de várias formas. Lei não falta. A gente tem a Lei da Igualdade Racial de 2012. A gente tem as próprias leis que vão criminalizar o racismo e, ao mesmo tempo, vale destacar, são todas elas, são crimes inafiançáveis hoje. A gente está falando também, para além disso, da implementação da Lei nº 11.645, que é a obrigatoriedade da história e da cultura afro-brasileira, indígenas, os conteúdos curriculares e escolares. Então, leis não faltam. O que falta é a aplicabilidade disso. Para aplicar isso, é a implementação de políticas públicas. No caso da população negra, a gente fala de reparação histórica, ela é muito mais além do que especificamente uma gestão de equiparação social. Ela é uma equiparação racial. Então, a gente está falando de um racismo que ela atravessa a nossa história. A gente está falando de três, quase quatro séculos de colonização, ou seja, de escravidão no Brasil. E por além disso, a gente está falando que muitas vezes o impacto disso se dá a partir do momento de uma desigualdade racial que atravessa nossa sociedade de uma ponta a outra. Pessoas negras ainda recebem menos, ainda estão quantitativamente, são muito diminutos os cargos de gestão. Quando ocupam, recebem menos que as pessoas brancas. A gente está falando de um país também que, embora a maioria da população seja negra, as pessoas que admitem que são pretas, ainda é muito pequenininho, gira em torno de 10% a 15%, porque as pessoas não se identificam e não têm essa ideia de pertencimento à noção de ser preto. Então, elas mesmo branqueiam muitas vezes suas cores. É mais comum a gente encontrar as pessoas falando que são populações negras e pardas do que necessariamente pretas. E aí eu acho que uma última coisa é como que isso se desdobra na escola. A escola, se ela não trabalha com uma consciência crítica racial, ela reproduz o sistema. Isso é fato. Atualmente a gente pode pensar nos conteúdos curriculares que diminuem consideravelmente a carga horária das disciplinas de história, de geografia, de filosofia, aumentam os cursos técnicos e os cursos de… de informática, de comunicação, e não proporciona às populações que estão dentro das escolas e que também as crianças, a maioria são pessoas negras, um conteúdo que lhe garante se ver no passado ou se ver no passado dentro de uma perspectiva colaborativa. Aliás, a gente acha que, no momento atual, um processo de silenciamento É o conteúdo curricular que tem nas apostilas, que foi implementado no caso de Mato Grosso pelo Mauro Mendes, mas é o que aconteceu no Paraná, é um pouco o que acontece em São Paulo, que são apostilas dadas pelo Estado e não os livros curriculares que são analisados pelo MEC, que são distribuídos gratuitamente pelo MEC. E aí, além dos professores perderem sua autonomia um pouco, perde a carga horária, precariza seu trabalho e tira a população negra do horizonte histórico. Isso é um processo de apagamento histórico muito, muito sério. Então, se as pessoas não se vê no passado, não se vê de forma colaborativa no passado, são pessoas que elas… não vão ter uma consciência positiva e crítica sobre si. E, na maioria das vezes, elas vão se sentir abandonadas por um Estado que não as coloca dentro de uma projeção de obsessão social. Então, acho que isso é uma coisa que a gente tem que pensar. E nas escolas, isso vai se reproduzir de várias formas. Vai se reproduzir na população preta, que vai recorrentemente sofrer tipos de violências verbais, ataques virtuais, e na maioria das vezes também são as pessoas que vão receber muito racismo no formato de bullying, vai ser coletivo. São as pessoas que vão abandonar as escolas também, muitas vezes entrar por crime, porque são pessoas que não se vê entrando na universidade, são pessoas que não se vê sendo concursados, então o crime vai ser o único horizonte para essas pessoas. E são crianças e adolescentes que, na maioria das vezes, vai crescer com uma perturbação mental muito grande. A autoestima, assim, a gente costuma dizer que isso é o que a gente chama de morte social. Pessoas que vão entrar em depressão, crise de ansiedade, autoestima baixa, né? de serem vítimas de vários tipos de violência. Então, se a escola não trabalha com o acolhimento dessas questões sociais, se ela não acolhe essas pessoas, ela vai reproduzir essas violências. E ela vai reproduzir desde os ofícios, os professores, professores que quando estão lá, as crianças, elas vão tratar as crianças brancas e dos olhos azuis como se elas fossem lindas, cheirosas, higienizadas, e as populações negras, e às vezes também gordinhas, ou às vezes muito magras, como se elas fossem crianças… Pedidas, crianças que estão com piolhos, crianças mal criadas, respondonas, que não têm uma tendência para estudar. Então, os professores mesmo, sem perceber, vão reproduzindo esse racismo e as crianças vão crescendo nessa violência. E quando isso chega na adolescência, aí a gente tem o universo da formação de identidade, da vestimenta, da construção de rede, grupos, guetos. Então, se essa criança não se vê num horizonte, num projeto, numa jornada, econômica do qual ela possa deliberadamente se ver como uma profissão de sucesso, esses jovens a gente perde ele. A gente perde ele já ali no lugar que mais deveria acolhê-lo, seja dentro de casa ou seja nas suas escolas. Então, assim, pensar em projetos dentro das escolas é muito significativo. Ou a implementação dessas leis nas escolas em forma de projetos é muito significativo. salva estudantes, mas salva vidas também. Isso é uma coisa que a gente tem que deixar explícita.
Talitta: Ana, você falou sobre a importância da representatividade dentro do âmbito escolar. A gente que é da área da história, a gente sabe dessa importância. As mídias também têm um papel nisso. Muitas das vezes, quando a gente vê os noticiários, Sempre que fala de bala perdida, essa bala sempre encontra um corpo que é negro, não se dá ao acaso. Então, qual é a importância da representatividade e o impacto desse tipo de notícia que muitas das vezes criminaliza, choca, mas gera essa comoção que dura apenas alguns dias e aí depois as pessoas se esquecem?
Ana Carolina: É importante você estar falando isso, Thalita, porque o slogan que mais circula hoje, que é Vidas Negras Importam, vai falar justamente desse Estado que ele não só abandona, mas ele também mata, literalmente, a população negra. Ela circulou muito nos Estados Unidos, mas vários outros países se compadeceram com esse slogan. E é importante a gente destacar na prática como que isso se dá. É simples. A cada 10 jovens que morrem hoje, antes os dados mostravam, o mapa da violência mostrava ali dos seus 19 aos 24 anos, né? Hoje é dos 19 aos 29 anos, ou seja, a fase que as pessoas negras estão construindo família, a fase que as pessoas negras estão, de uma certa forma… se estruturando na profissão e eles morrem. 25% dessa população morre pela polícia. É um dado gravíssimo se a gente colocar em cena que uma parte dessa população sequer considera os corpos que não são encontrados da população negra. Então, esse é um ponto importante. E aí o outro ponto que a gente coloca também é o índice de população negra presa. 87% da população negra presa não foi julgada e foi preso como suspeito. Ele não foi investigado, ele não foi julgado. E são pessoas que ficam há 10, 15, 20 anos. E eu só estou dando um dado simples, gente. A gente pega os PCDs também. Homens que são presos, PCDs no Brasil, 85% deles não nascem PCDs. Eles se tornam PCDs. Uma parte dessa galera se vira PCD por baculejo da polícia. E tem trabalho sentido que se fala sobre isso. Policiais que atiram nas pernas ou que torturam jovens e adolescentes porque são de menores e diz que ao deixarem eles de uma certa forma precedentes, está evitando um criminoso de ficar roubando e dando trabalho para eles no futuro. Ou seja, eles já são condenados ou suspeitos antes de se tornarem cidadãos. E esse dado, quando a gente pensa nesse universo, ele é muito assustador. Se a gente pensar um pouco nesse universo, a mídia tem um papel… da comunicação, da visibilidade das denúncias. Então, ela tem esse papel formativo, informativo, mas também de ter um apelo crítico, um apelo social de grande importância e visibilidade para essas atrocidades que acontecem. A gente pode pensar também nesse papel da comunicação, a importância de representatividade de negros enquanto jornalistas, enquanto comunicadores, influencers, ou seja, pessoas que têm um papel de estarem na frente, de serem escutados, de trazerem informações e de trazer um legado com eles de que é possível ocupar esses espaços. Mas eu acho que um dos grandes… papéis que a mídia também coloca, é como se ela fosse um lugar de muito debate, um lugar de muita politização. Eu lembro que agora, escutando sobre os pancadões, por exemplo, eu conheci o Tiago, que depois, inclusive, eu fui conversar com a minha filha de 21 anos, da importância política que esse cara tem, e ela falou que ela já conhecia ele há três anos, que é o Chavoso da USP, um cientista social negro da periferia, que é uma grande influência, que traz temáticas no âmbito intelectual, denunciando ali o racismo institucional e acadêmico e sinalizando que a periferia tem sua linguagem, tem suas referências, tem suas leituras de mundo e se colocando como um protagonista histórico, mas, acima de tudo, como um menino jovem com uma consciência muito crítica de um Estado que o abandona. E ele tem um papel fundamental na mídia, assim, ele é escutado tanto por pessoas da periferias negras quanto brancas e que, assim como ele, se alinha uma visão crítica do Estado e uma denúncia também do Estado que não só abandona como mata nossos jovens, né? Então, acho que isso é importante a gente sinalizar e sempre, gente, assim, que a gente fala de influências, que a gente fala não é o mesmo retorno financeiro, não é a mesma Tem essas diferenciações também de público que segue e também do retorno de dinheiro, do capital que retorna para essas pessoas. E isso é muito recorrente também em relação a esse universo virtual da população preta. E somos poucos, viu? Somos poucos nesse universo ainda. Dá para contar nas mãozinhas e ainda não cabem todos os dedinhos.
Talitta: Ana, eu quero te agradecer por esse PluriCast que eu já tentei gravar várias e várias vezes quem está nos ouvindo deve perceber que tem som de passarinho no fundo a gente está aqui no terreiro gravando eu acho que é extremamente significativo falar sobre isso e é extremamente importante que seja você falando sobre isso eu quero te agradecer mais uma vez e eu espero que quem esteja nos ouvindo utilize esse PluriCast não apenas como um material para pensar no Enem mas para a vida.
Ana Carolina: Eu que agradeço, Thalita é uma grande parceira de trabalho, uma amiga pessoal também, viu gente? Então, acho que ter a sensibilidade de trazer esse tema para dialogar com vocês e também ter essa projeção não só de Enem, mas de uma formação intelectual, de uma visão crítica da sociedade, uma consciência histórica significativa, eu acho que é o que enriquece as extensões que ela faz e que ela intercala muito bem ciência com intervenção social e com o protagonismo de vocês que devem estar nos escutando e que automaticamente esse tema espero que esteja bem dentro da universidade, junto com a gente, porque a gente precisa de jovens, a gente precisa de periferia, a gente precisa de povo preto também nesses lugares.
Talitta: E aí, gostou? Quer saber um pouco mais? Então acesse o nosso Instagram, arroba pluricast.ichs, porque lá a gente disponibiliza materiais de apoio, outros podcasts para você se sair bem no Enem. A gente se vê numa próxima. Até mais!